Relação com servidor será um dos maiores desafios de Simões
- Caserna Digital

- 16 de mar.
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De olho na troca de comando do governo de Minas, que será chefiado a partir de domingo (22/3) pelo atual vice-governador, Mateus Simões (PSD), servidores estaduais já se organizam para reivindicar o cumprimento de promessas que, segundo eles, não foram concretizadas por Romeu Zema (Novo), que deixa o Palácio Tiradentes em menos de uma semana para se dedicar à corrida presidencial.
Procurados por O TEMPO para apontar qual será a principal demanda levada a Simões depois que ele assumir o governo, lideranças sindicais da educação, segurança e saúde – categorias que concentram o maior número de servidores estaduais – indicaram que a prioridade será cobrar a valorização do funcionário público e/ou o aumento real dos salários, com reposição de perdas inflacionárias acumuladas nos últimos anos. Um fato que, segundo especialistas, criará um impasse político e administrativo para Simões logo no início do mandato.
Uma proposta de reajuste geral, retroativa a janeiro de 2026, já foi encaminhada por Zema para análise da Assembleia Legislativa na última semana, mas o percentual proposto (5,4%) desagradou aos servidores. Embora esteja acima da inflação de 2025 (4,26%), sindicatos alegam que o índice não compensa perdas acumuladas em anos anteriores. Zema prometeu, na eleição de 2022, conceder “reajustamento anual para recompor as perdas ocasionadas pela inflação”, mas o único reajuste geral, desde então, foi em 2024 (4,62%).
Questionado se haveria margem para ampliar o percentual oferecido neste ano, Zema argumentou, em entrevista a O TEMPO na última sexta-feira (13/3), que 5,4% “está no limite daquilo que o estado pode dar”. “Qualquer descuido que tivermos, o estado vai entrar no vermelho e voltar a atrasar salários”, argumentou o governador.
Mas, ainda que esteja disposto a negociar, Simões teria pouco tempo para conceder um reajuste maior em 2026. Conforme a legislação, em ano eleitoral, aumentos acima da inflação só podem ser aprovados até 180 dias antes do pleito. Com o prazo, o novo governador só teria até 4 de abril para costurar um acordo com os servidores, ter o texto aprovado na Assembleia e sancionar a recomposição com um valor superior ao anunciado.
O advogado Paulo Studart, especialista em direito administrativo, acrescenta que, além do prazo estreito para negociação, Simões herda limitações orçamentárias do estado, que aderiu recentemente ao Propag para equacionar uma dívida de mais de R$ 180 bilhões com a União. Diante do cenário, ele avalia que “a relação com os servidores tende a ser, no primeiro momento, um dos principais desafios de Simões à frente do governo”.
Especialista em ciência política, Moacir de Freitas Junior concorda. “Não será uma situação simples para Simões. E nem se pode dizer que se trata de um ou outro setor, porque amplos setores do funcionalismo estão descontentes e vão tensionar até abril para ver se conseguem extrair alguma coisa para este ano ainda”, prevê Freitas Junior.
A justificativa da existência de travas legais e financeiras não arrefece os ânimos do funcionalismo. “Esperamos pouca coisa ou nada do governo Simões. Mas entre nossas prioridades está o pagamento das perdas de 41,83% que o governo Zema não pagou ou pagou a menos”, reivindica Denise Romano, coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE/MG).
A queixa vai na mesma direção do que pleiteiam servidores da segurança pública. “Que ele cumpra o compromisso que Zema não cumpriu, de fazer a recomposição das perdas inflacionárias”, cobra Heder Martins, diretor jurídico da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares.
Impasse pode impactar campanha
O caminho escolhido por Mateus Simões (PSD) para conduzir a relação com os servidores públicos estaduais enquanto estiver à frente do governo de Minas – de março a dezembro de 2026 – pode ditar também os rumos da campanha eleitoral do político, que é pré-candidato ao Palácio Tiradentes, avaliam especialistas.
Simões chegou a dizer, na última sexta-feira (13/3), que as eleições não norteiam seus movimentos junto aos servidores. Ao comentar o reajuste salarial proposto (5,4%), ele afirmou saber que os “servidores têm reajustes que não foram concedidos no passado e que isso diminui o poder de compra deles”. “Mas R$ 3,4 bilhões por ano é um valor muito alto e já vamos fazer um esforço muito grande para caber no Orçamento”, declarou.
Apesar da posição, o advogado Paulo Studart, especialista em direito administrativo, argumenta que a relação com os servidores precisa ser levada em consideração por Simões durante sua empreitada eleitoral. “Os servidores têm uma maior capacidade de mobilização e influência política, especialmente em áreas estratégicas e muito sensíveis para a população, como segurança pública, educação e saúde. Se esse impasse sobre a questão salarial e de valorização dos servidores se prolongar, isso pode ser enxergado com uma falta ou dificuldade de diálogo com as categorias”, aponta.
O cientista político Lucas Gelape lembra que a relação com o servidor público chegou a ser considerada um dos principais ativos do governo Romeu Zema, especialmente no primeiro mandato (2019-2022), quando a gestão encerrou um ciclo de atrasos salariais. Hoje, porém, ele avalia que só pagar os vencimentos em dia não basta. “Os servidores querem mais. Eles não querem só receber em dia, eles querem ter aumento real de salários. O que já foi um ativo para o governo Zema, pode vir agora a ser um problema para a candidatura de Simões”, considera Gelape.Se a indisposição com o funcionalismo se confirmar, o cientista político Moacir de Freitas Junior também considera que “Simões não terá caminho fácil nas eleições”. “São votos que farão falta”, analisa o especialista.



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